Meio-dia a dar no sino das torres, e eu entrando em casa de Lúcia.
Tinha refletido: essa amizade não podia continuar; se havia de desatar mais tarde, depois
de me ter feito curtir mil dissabores, bom era que cessasse desde logo. Não julgue porém que estava
resolvido a separar-me por uma vez de Lúcia; minha coragem não chegava a tanto. O que eu
desejava era demitir de mim um título que me esmagava na minha pobreza, o título de amante
exclusivo da mais elegante e mais bonita cortesã do Rio de Janeiro.
Ela recebeu-me com brandura. Tinha os olhos rubros e pisados de lágrimas; apertando
minha mão, beijou-a. Que pretendia ela exprimir com esse movimento! Seria a imagem viva da
humilde fidelidade do cão, afagando a mão que o acaba de castigar?
Estivemos muito tempo sem trocar palavra.
Enfim Lúcia fez um esforço, sorriu como se nada houvesse passado, e veio sentar-se nos
meus joelhos, acariciando-me com a ternura e a graciosa volubilidade que ela tinha quando o júbilo
lhe transbordava d'alma. Aproveitei o momento para alijar o peso que desde a véspera me
acabrunhava.
— Sabes que eu não sou rico, Lúcia!
Seu olhar luminoso penetrou-me até os seios d’alma para arrancar o pensamento que
inspirava essas palavras; respondeu com um pálido sorriso:
— Pensava ao contrário que era muito rico!
Ela mentia!
— Pois pensaste mal. Sou pobre, e não posso sustentar o luxo de uma mulher como tu.
— Acha pouco o que me tem dado!
— O que dei não vale a pena de ser lembrado. Falemos do que te devia dar, e não pude,
porque não tinha. Neste mês que se passou, a tua vida não foi tão brilhante como era antes.
— Porque eu não quis, e não porque me faltasse coisa alguma. Nunca me achei tão rica
como agora.
— Não tens sido vista nos teatros e passeios; já não tens um carro; não és enfim a mulher
do tom que eu ainda conheci!
— Aborreci-me de tudo isto!
— Não te podes aborrecer sem que o mundo repare!
— Como! Não sou senhora de viver a meu modo, desde que com isso não faço mal a
ninguém? Se apareço, é um escândalo; se fico no meu canto, ainda se ocupam comigo.
— Que queres! Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és
uma celebridade pela beleza, como outras o são pelo talento e pela posição. O público, em troca do
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favor e admiração de que cerca os seus ídolos, pede-lhes conta de todas as suas ações. Quer saber
por que agora andas tão retirada; e não acha senão um motivo.
— Qual? perguntou Lúcia com ansiedade.
— Supõe que eu te sacrifico aos meus ciúmes; e não me perdoa, porque não sou bastante
rico para ter semelhantes caprichos.
— É isso que o incomoda! Meu Deus! Fique descansado: terei carro, aparecerei como
dantes! Hoje mesmo!... Verá! Não sabe quanto me custa esse sacrifício; mas um só beijo me paga
com usura!
Estalou o lábio entre os meus.
— Precisava dele para me dar coragem; agora sinto me forte.
— Aonde vais? perguntei retendo-a.
— Vou mandar a cocheira ver o meu carro; escrever à Gudin que me faça uma dúzia de
vestidos os mais ricos; dizer ao caixeiro do Wallerstein que me traga para escolher o que ele tem de
melhor em modas chegadas ultimamente! É verdade, esquecia-me de mandar tomar uma assinatura
no teatro lírico, e encomendar uma nova parelha de cavalos. A minha caleça já está usada; preciso
trocá-la por uma vitória, e renovar o fardamento dos criados. Até à noite tenho tempo para tudo. O
Jacinto se incumbirá de uma parte das comissões.
Olhei para Lúcia; ou está louca, ou zomba de mim, foi a minha primeira idéia, ouvindo a
sem-cerimônia e o desplante com que ela decretava um orçamento de despesa que faria estremecer
o mais pródigo financeiro.
— Espera, Lúcia!
— Ainda não é bastante? Que hei de fazer mais? disse com um gesto de cômico desespero.
Ah! Mandarei arranjar de novo a minha casa, e darei um baile! Que diz!
— Farás o que for do teu gosto!
— Do meu!...
— Goza da tua mocidade, é justo: tu podes e deves fazer; mas como só eu venho à tua casa
e todo o mundo sabe que não sou milionário, compreendes que, se isto continuasse, suspeitariam,
diriam mesmo, se já não disseram, que vivo à tua custa!
Lúcia ficou lívida; tinha compreendido.
— Então não posso dar-me a quem for de minha vontade?
— Quem diz isso? Eu é que não te posso aceitar por semelhante preço. À custa da honra...
é muito caro, Lúcia!
— Ah! esquecia que uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um carro
da praça, que não pode recusar quem chega. Estes objetos, este luxo, que comprei muito caro
também, porque me custaram vergonha e humilhação, nada disto é meu. Se quisesse dá-los,
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roubaria aos meus amantes presentes e futuros; aquele que os aceitasse seria meu cúmplice.
Esqueci, que, para ter o direito de vender o meu corpo, perdi a liberdade de dá-lo a quem me
aprouver! O mundo é lógico! Aplaudia-me se eu reduzisse à miséria a família de algum libertino;
era justo que pateasse se eu tivesse a loucura de arruinar-me, e por um homem pobre! Enquanto
abrir a mão para receber o salário, contando os meus beijos pelo número das notas do banco, ou
medindo o fogo das minhas carícias pelo peso do ouro; enquanto ostentar a impudência da cortesã e
fizer timbre da minha infâmia, um homem honesto pode rolar-se nos meus braços sem que a mais
leve nódoa manche a sua honra; mas se pedir-lhe que me aceite, se lhe suplicar a esmola de um
pouco de afeição, oh! então o meu contato será como a lepra para a sua dignidade e a sua reputação.
Todo o homem honesto deve repelir-me!
Impetuosas como a torrente que borbota em cachões, ardentes como as bolhas d'água em
plena ebulição, essas palavras se precipitavam dos lábios de Lúcia, em tropel e quase sem nexo. Às
vezes de tão rápidas que vinham lhe tomavam a respiração, e parecia que a estrangulavam. Até que
por fim um soluço cortou-lhe a voz; o seio ofegou como se o coração lhe quisesse saltar com o
último grito de indignação de sua alma ofendida.
Que responder àquela lógica inflexível da paixão fazendo justiça aos prejuízos sociais?
Nada. Calei-me, irritado contra os estímulos nobres que recebemos na infância e não nos permitem
praticar cientemente um ato de que devamos corar.
— Tu me fazes arrepender da minha franqueza, Lúcia! disse passado um momento.
Preferias que deixasse de ver-te?
— Não! Antes assim! O senhor quer!... Será feita a sua vontade! Terei amantes!
Saiu arrebatadamente e fechou-se no toucador.
Voltei, refletindo se o que tinha feito era realmente uma ação digna, ou uma refinada
covardia; servilismo à inveja e malevolência social, que se decora tantas vezes com o pomposo
nome de opinião pública.
Às três horas da tarde passando pela Rua do Ouvidor vi Lúcia na casa do Desmarais,
cercada por uma grande roda, na qual eu distingui logo o Sr. Couto e o Cunha.
Lúcia estava rutilante de beleza; a sua formosura tinha nesse momento uma ardentia
fosforescente que eu atribuí à irritação nervosa da manhã. O orgulho e o desprezo vertiam-Ihe de
todos os poros, nos olhos, nos lábios, nas faces e no porte desenvolto. Ela flutuava numa atmosfera
maléfica para o coração, que, entrando naquela zona abrasada, sentia-se asfixiar. A roda elegante
festejava o astro que surgia, depois do seu eclipse passageiro, mais que nunca brilhante.
Atirando a réplica viva e incisiva a todos os adoradores que a cortejavam; escarnecendo da
fineza, e fazendo ressaltar a zombaria contra o que a lançara, Lúcia, com a mesma liberdade que
teria em sua casa, continuava a escolher na grande exposição de objetos de fantasia que cobria os
balcões.
Que sentimento me obrigava a parar na loja para seguir com os olhos essa mulher, à posse
exclusiva da qual eu acabava de renunciar? Que motivo estranho, vendo-a agora cercada de
apaixonados, me fazia sofrer, a mim que não havia duas horas tinha assistido friamente à explosão
violenta da sua cólera?
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Lúcia me viu, porém não me deu atenção. Dirigiu-se ao Couto; trocando com ele algumas
palavras em segredo, voltou para o caixeiro e declarou que comprava os objetos apartados, cujo
preço lhe seria enviado no dia seguinte.
Vendo gesto significativo do Couto ao dono da loja, como eu, todas as pessoas presentes
ficaram persuadidas que da bolsa do velho saía o dinheiro que ela acabava de atirar a mancheias de
uma a outra ponta da Rua do Ouvidor.
Felizmente para mim, que já não me podia conter, o suplício terminou. Ela retirava-se.
Passando junto de mim cortejou-me, e disse em vez baixa:
— Está satisfeito?
O sorriso em que ela envolveu estas palavras, caiu, se me posso assim exprimir, como a
dobra de uma mortalha; tal foi a súbita lividez que lhe cobriu o rosto, e o desanimo que abateu o seu
corpo.
O Couto apressou-se a oferecer-lhe a mão para ajudá-la a entrar no carro.
— Até logo! disse-lhe ela bem alto.
Podia-me restar a menor dúvida? Lúcia era amante do Couto.
Enquanto acompanhava com os olhos a cortesã desprezível que se balançava lubricitante
no seu novo carro, insultando com o luxo desmedido as senhoras honestas que passavam a pé, sabe
de que me lembrei? Não foi da ceia em casa de Sá, nem do mês que acabava de passar; foi
unicamente da suave aparição da Rua das Mangueiras no dia da minha chegada. São extravagâncias
da memória. Quem conhece o fio misterioso que leva o pensamento através do labirinto do passado
a uma lembrança remota?
— Rei morto, rei posto! disse-me o Cunha, que chegara à porta para ver Lúcia entrar no
carro.
— Não sei a que se refere!
— Referia-me, Sr. Silva, continuou apontando para o carro que ainda aparecia, àquele
trono de sedas e veludos que vagou esta manhã, e que uma hora depois já estava preenchido.
— Enganou-se, Sr. Cunha, respondi no mesmo tom de gracejo, fui apenas regente durante
uma curta vacância.
— Pois não é isso o que se dizia.
— O que se dizia então? repliquei tornando-me sério, porque as palavras de Sá me
acudiram ao pensamento.
— Dizia-se que o senhor mudara o sistema de governo daquele estado, e sucedera na
qualidade de autocrata aos reis constitucionais, como eu tive a honra de sê-lo em certo tempo.
— O que entende por autocrata, Sr. Cunha?
— Perdão: vejo que toma ao sério um gracejo. Mudemos de assunto; não desejo ofendê-lo.
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O Couto, que nos ouvia de princípio, interveio na conversa.
— A significação da palavra é bem clara, Sr. Silva, disse com o seu fátuo sorriso.
— Se o Sr. Couto quisesse fazer-me o favor de explicá-la Tenho a inteligência embotada.
O velho calou-se com visível embaraço. Continuei pesando as minhas palavras:
— O senhor quer talvez lembrar-me que os autocratas têm o costume de tiranizar os povos
e vexá-los de imposições; razão por que os povos, quando os expulsam, se tornam excessivamente
exigentes para com os truões que lhes sucedem. Não é isto? Diga-me por obséquio: não faz idéia da
ansiedade com que procuro desde ontem um homem que tenha a coragem de repetir-mo em face!
— Ora, o senhor está brincando!
E o Sr. Couto fez-me uma profunda cortesia, e saiu empertigando-se mais que de costume.
Voltei-me para o Cunha.
— Bem dada lição! disse estendendo-me a mão.
— Decididamente não havia meio de brigar; o homem que eu procurava fugia-me como
uma sombra.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
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5 comentários:
No capítulo retratado, Paulo ao voltar à casa de Lúcia, trata-a mal por causa das palavras ditas por Sá na noite anterior,"porque as palavras de Sá me acudiram ao pensamento", tais pensamentos julgavam que Paulo passara a viver as custas de Lúcia, além de proibi-la de frequentar a sociedade. Lúcia, que desde que se envolvera com Paulo havia se isolado, ao ver a indignação dele por causa das fofocas e de realmente não ter condições para sustentar uma moça de tão alto porte, dispõe-se a voltar à vida prostituida que antes tivera apenas para salvar a reputação de seu amado. Mas Paulo não a compreende.
Grupo: Ana Clara, Dalila, Gabriela, Laís, e Thais Peterle
Paulo está muito preocupado com a felicidade de Lucíola, pois ele não pertencia à classe alta da sociedade para oferecer todo o luxo no qual ela vivia, Foi quando Paulo a pergunta se ela estava ciente de toda essa situação. Lucíola o responde dizendo que a riqueza maior não são os carros nem o bem material, apesar de ser importante para sua imagem, mas ela vem aprendendo que existem coisas mais importantes. Eles começam a discutir, pois Paulo acha que ela só quer viver em meio a toda alta sociedade, e que seus amantes a sustentem, mas ela só quer viver com ele, Mas ele se arrepende de ter dito e criticado pela sua “profissão” se sentiu um covarde em se deixar levar pelos princípios ditados por uma sociedade, e pela opinião publica. Ela diz a ele, que já é de sua vontade, então ela teria amantes.
Paulo começa a pensar então que Lucíola teria um amante, o Couto. Pois ele tinha dado um carro luxuoso para ela. O Couto apressou-se a oferecer-lhe a mão para ajudá-la a entrar no carro.
Foi quando Paulo ouviu:
— Até logo! Disse-lhe ela bem alto.
Não restava mais duvidas a Paulo. Lúcia era amante do Couto.
Mas ela o amava, e abriria mão de seus caprichos para poder viver com Paulo.
o comentário feito a cima, foi escrito pelo grupo: Lorena, Thais Uliana, Thaiz Altoé e Paulo Júnior.
No decorrer deste capítulo, nota-se que Paulo já tem conhecimento da profissão exercida por Lúcia, e que, segundo ele, ambos não poderiam usufruir de uma paixão devido à profissão dela e devido a sua condição financeira, mas no decorrer do mesmo, ele é perseguido pela dúvida de estar fazendo o certo ou o errado deixando Lúcia. E no mesmo capítulo podemos notar que Lúcia está de certa forma, apaixonada por ele, e que ela não se importa com a condição financeira dele, percebe-se isso quando ela, num tom irônico, lhe profere: “Pensava ao contrário que era muito rico!” quando Paulo havia lhe dito que não era rico.
Comentário feito por: Felipe, Hugo, Isadora, João Vitor
Neste capítulo, nota-se uma sinceridade entre o casal Paulo e Lúcia, representando um dos clímax da história. Paulo visita Lúcia e desejava: "O que eu desejava era demitir de mim um título que me esmagava na minha pobreza, o título de amante exclusivo da mais elegante e mais bonita cortesã do Rio de Janeiro". Então, ele chega a seguinte conclusão, "neste mês que se passou, a tua vida não foi tão brilhante como era antes". Porém, Lúcia já sentia-se realizada,"nunca me achei tão rica como agora",e concluiu: "é isso que o incomoda!Meu Deus! Fique descansado: terei carro,aparecerei como antes." Ao final, Paulo descobre que Couto era amante de Lúcia, sendo esse homem quem pagava suas contas nas lojas.
Grupo: Adeliane,Bárbara,Érica e Karina.
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