A voz desfaleceu completamente, de extenuada que ela ficara por esse enérgico esforço.
Eu chorava de bruços sobre o travesseiro, e as suas palavras suspiravam docemente em minha alma,
como as dulias dos anjos devem ressoar aos espíritos celestes.
— Nunca te disse que te amava, Paulo!
— Mas eu sabia, e era feliz!
— Tu me purificaste ungindo-me com os teus lábios. Tu me santificaste com o teu
primeiro olhar! Nesse momento Deus sorriu e o consórcio de nossas almas se fez no seio do
Criador. Fui tua esposa no céu! E contudo essa palavra divina do amor, minha boca não a devia
profanar, enquanto viva. Ela será meu último suspiro.
Lúcia pediu-me que abrisse a janela: era noite já; do leito víamos uma zona de azul na qual
brilhava límpida e serena a estrela da tarde. Um sorriso pálido desfolhou-se ainda nos lábios sem
cores: sublime êxtase iluminou a suave transparência de seu rosto. A beleza imaterial dos anjos
deve ter aquela divina limpidez.
— Recebe-me... Paulo!...
Terminei ontem este manuscrito, que lhe envio ainda úmido de minhas lágrimas.
Relendo-o, admirei como tivera a coragem de alguma vez, no correr desta história, deixar a
minha pena rir e brincar, quando o meu coração estava ainda cheio da saudade, que sepultou-se nele
para sempre.
É porque, repassando na memória essa melhor porção de minha vida, alheio-me tanto do
presente que revivo hora por hora aqueles dias de ventura, como de primeiro os vivo, ignorando o
futuro, e entregue todo às emoções que sentia outrora. Quando eu gracejava, Lúcia estava ainda ao
meu lado; ainda eu era feliz da minha lembrada felicidade.
Há seis anos que ela me deixou; mas eu recebi a sua alma, que me acompanhará
eternamente. Tenho-a tão viva e presente no meu coração, como se ainda a visse reclinar-se meiga
para mim. Há dias no ano e horas no dia que ela sagrou com a sua memória, e lhe pertencem
exclusivamente. Onde quer que eu esteja, a sua alma me reclama e atrai; é forçoso então que ela
viva em mim. Há também lugares e objetos onde vagam seus espíritos; não os posso ver sem que o
seu amor me envolva como uma luz celeste.
Ana casou-se há dois anos. Vive feliz com seu marido, que a ama como ela merece. É um
anjo de bondade; e a juventude realçando-lhe as graças infantis, aumentou a sua semelhança com a
irmã; porém falta-lhe aquela irradiação íntima de fogo divino. Almas como as de Lúcia, Deus não
as dá duas vezes à mesma família, nem as cria aos pares, mas isoladas como os grandes astros
destinados a esclarecer uma esfera.
Cumpri a vontade de minha Lúcia; tenho servido de pai a essa menina; com a sua
felicidade paguei um óbolo de minha gratidão à doce amiga que tanto amou-me.
Estas páginas foram escritas unicamente para a senhora. Vazei nelas toda a minha alma
para lhe transmitir um perfume da mulher sublime, que passou na minha vida como sonho fugace.
Creio que não o consegui; por isso fecho aqui alguns fios da trança de cabelos, que cortei no
momento de dizer o último adeus à sua imagem querida.
Há nos cabelos da pessoa que se ama não sei que fluido misterioso, que comunica com o
nosso espírito. A senhora há de amar Lúcia, tenho a certeza; talvez pois aquela relíquia, ainda
impregnada de seiva e fragrância da criatura angélica, lhe revele o que eu não pude exprimir
terça-feira, 25 de novembro de 2008
CAPÍTULO XII
Meio-dia a dar no sino das torres, e eu entrando em casa de Lúcia.
Tinha refletido: essa amizade não podia continuar; se havia de desatar mais tarde, depois
de me ter feito curtir mil dissabores, bom era que cessasse desde logo. Não julgue porém que estava
resolvido a separar-me por uma vez de Lúcia; minha coragem não chegava a tanto. O que eu
desejava era demitir de mim um título que me esmagava na minha pobreza, o título de amante
exclusivo da mais elegante e mais bonita cortesã do Rio de Janeiro.
Ela recebeu-me com brandura. Tinha os olhos rubros e pisados de lágrimas; apertando
minha mão, beijou-a. Que pretendia ela exprimir com esse movimento! Seria a imagem viva da
humilde fidelidade do cão, afagando a mão que o acaba de castigar?
Estivemos muito tempo sem trocar palavra.
Enfim Lúcia fez um esforço, sorriu como se nada houvesse passado, e veio sentar-se nos
meus joelhos, acariciando-me com a ternura e a graciosa volubilidade que ela tinha quando o júbilo
lhe transbordava d'alma. Aproveitei o momento para alijar o peso que desde a véspera me
acabrunhava.
— Sabes que eu não sou rico, Lúcia!
Seu olhar luminoso penetrou-me até os seios d’alma para arrancar o pensamento que
inspirava essas palavras; respondeu com um pálido sorriso:
— Pensava ao contrário que era muito rico!
Ela mentia!
— Pois pensaste mal. Sou pobre, e não posso sustentar o luxo de uma mulher como tu.
— Acha pouco o que me tem dado!
— O que dei não vale a pena de ser lembrado. Falemos do que te devia dar, e não pude,
porque não tinha. Neste mês que se passou, a tua vida não foi tão brilhante como era antes.
— Porque eu não quis, e não porque me faltasse coisa alguma. Nunca me achei tão rica
como agora.
— Não tens sido vista nos teatros e passeios; já não tens um carro; não és enfim a mulher
do tom que eu ainda conheci!
— Aborreci-me de tudo isto!
— Não te podes aborrecer sem que o mundo repare!
— Como! Não sou senhora de viver a meu modo, desde que com isso não faço mal a
ninguém? Se apareço, é um escândalo; se fico no meu canto, ainda se ocupam comigo.
— Que queres! Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és
uma celebridade pela beleza, como outras o são pelo talento e pela posição. O público, em troca do
54
favor e admiração de que cerca os seus ídolos, pede-lhes conta de todas as suas ações. Quer saber
por que agora andas tão retirada; e não acha senão um motivo.
— Qual? perguntou Lúcia com ansiedade.
— Supõe que eu te sacrifico aos meus ciúmes; e não me perdoa, porque não sou bastante
rico para ter semelhantes caprichos.
— É isso que o incomoda! Meu Deus! Fique descansado: terei carro, aparecerei como
dantes! Hoje mesmo!... Verá! Não sabe quanto me custa esse sacrifício; mas um só beijo me paga
com usura!
Estalou o lábio entre os meus.
— Precisava dele para me dar coragem; agora sinto me forte.
— Aonde vais? perguntei retendo-a.
— Vou mandar a cocheira ver o meu carro; escrever à Gudin que me faça uma dúzia de
vestidos os mais ricos; dizer ao caixeiro do Wallerstein que me traga para escolher o que ele tem de
melhor em modas chegadas ultimamente! É verdade, esquecia-me de mandar tomar uma assinatura
no teatro lírico, e encomendar uma nova parelha de cavalos. A minha caleça já está usada; preciso
trocá-la por uma vitória, e renovar o fardamento dos criados. Até à noite tenho tempo para tudo. O
Jacinto se incumbirá de uma parte das comissões.
Olhei para Lúcia; ou está louca, ou zomba de mim, foi a minha primeira idéia, ouvindo a
sem-cerimônia e o desplante com que ela decretava um orçamento de despesa que faria estremecer
o mais pródigo financeiro.
— Espera, Lúcia!
— Ainda não é bastante? Que hei de fazer mais? disse com um gesto de cômico desespero.
Ah! Mandarei arranjar de novo a minha casa, e darei um baile! Que diz!
— Farás o que for do teu gosto!
— Do meu!...
— Goza da tua mocidade, é justo: tu podes e deves fazer; mas como só eu venho à tua casa
e todo o mundo sabe que não sou milionário, compreendes que, se isto continuasse, suspeitariam,
diriam mesmo, se já não disseram, que vivo à tua custa!
Lúcia ficou lívida; tinha compreendido.
— Então não posso dar-me a quem for de minha vontade?
— Quem diz isso? Eu é que não te posso aceitar por semelhante preço. À custa da honra...
é muito caro, Lúcia!
— Ah! esquecia que uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um carro
da praça, que não pode recusar quem chega. Estes objetos, este luxo, que comprei muito caro
também, porque me custaram vergonha e humilhação, nada disto é meu. Se quisesse dá-los,
55
roubaria aos meus amantes presentes e futuros; aquele que os aceitasse seria meu cúmplice.
Esqueci, que, para ter o direito de vender o meu corpo, perdi a liberdade de dá-lo a quem me
aprouver! O mundo é lógico! Aplaudia-me se eu reduzisse à miséria a família de algum libertino;
era justo que pateasse se eu tivesse a loucura de arruinar-me, e por um homem pobre! Enquanto
abrir a mão para receber o salário, contando os meus beijos pelo número das notas do banco, ou
medindo o fogo das minhas carícias pelo peso do ouro; enquanto ostentar a impudência da cortesã e
fizer timbre da minha infâmia, um homem honesto pode rolar-se nos meus braços sem que a mais
leve nódoa manche a sua honra; mas se pedir-lhe que me aceite, se lhe suplicar a esmola de um
pouco de afeição, oh! então o meu contato será como a lepra para a sua dignidade e a sua reputação.
Todo o homem honesto deve repelir-me!
Impetuosas como a torrente que borbota em cachões, ardentes como as bolhas d'água em
plena ebulição, essas palavras se precipitavam dos lábios de Lúcia, em tropel e quase sem nexo. Às
vezes de tão rápidas que vinham lhe tomavam a respiração, e parecia que a estrangulavam. Até que
por fim um soluço cortou-lhe a voz; o seio ofegou como se o coração lhe quisesse saltar com o
último grito de indignação de sua alma ofendida.
Que responder àquela lógica inflexível da paixão fazendo justiça aos prejuízos sociais?
Nada. Calei-me, irritado contra os estímulos nobres que recebemos na infância e não nos permitem
praticar cientemente um ato de que devamos corar.
— Tu me fazes arrepender da minha franqueza, Lúcia! disse passado um momento.
Preferias que deixasse de ver-te?
— Não! Antes assim! O senhor quer!... Será feita a sua vontade! Terei amantes!
Saiu arrebatadamente e fechou-se no toucador.
Voltei, refletindo se o que tinha feito era realmente uma ação digna, ou uma refinada
covardia; servilismo à inveja e malevolência social, que se decora tantas vezes com o pomposo
nome de opinião pública.
Às três horas da tarde passando pela Rua do Ouvidor vi Lúcia na casa do Desmarais,
cercada por uma grande roda, na qual eu distingui logo o Sr. Couto e o Cunha.
Lúcia estava rutilante de beleza; a sua formosura tinha nesse momento uma ardentia
fosforescente que eu atribuí à irritação nervosa da manhã. O orgulho e o desprezo vertiam-Ihe de
todos os poros, nos olhos, nos lábios, nas faces e no porte desenvolto. Ela flutuava numa atmosfera
maléfica para o coração, que, entrando naquela zona abrasada, sentia-se asfixiar. A roda elegante
festejava o astro que surgia, depois do seu eclipse passageiro, mais que nunca brilhante.
Atirando a réplica viva e incisiva a todos os adoradores que a cortejavam; escarnecendo da
fineza, e fazendo ressaltar a zombaria contra o que a lançara, Lúcia, com a mesma liberdade que
teria em sua casa, continuava a escolher na grande exposição de objetos de fantasia que cobria os
balcões.
Que sentimento me obrigava a parar na loja para seguir com os olhos essa mulher, à posse
exclusiva da qual eu acabava de renunciar? Que motivo estranho, vendo-a agora cercada de
apaixonados, me fazia sofrer, a mim que não havia duas horas tinha assistido friamente à explosão
violenta da sua cólera?
56
Lúcia me viu, porém não me deu atenção. Dirigiu-se ao Couto; trocando com ele algumas
palavras em segredo, voltou para o caixeiro e declarou que comprava os objetos apartados, cujo
preço lhe seria enviado no dia seguinte.
Vendo gesto significativo do Couto ao dono da loja, como eu, todas as pessoas presentes
ficaram persuadidas que da bolsa do velho saía o dinheiro que ela acabava de atirar a mancheias de
uma a outra ponta da Rua do Ouvidor.
Felizmente para mim, que já não me podia conter, o suplício terminou. Ela retirava-se.
Passando junto de mim cortejou-me, e disse em vez baixa:
— Está satisfeito?
O sorriso em que ela envolveu estas palavras, caiu, se me posso assim exprimir, como a
dobra de uma mortalha; tal foi a súbita lividez que lhe cobriu o rosto, e o desanimo que abateu o seu
corpo.
O Couto apressou-se a oferecer-lhe a mão para ajudá-la a entrar no carro.
— Até logo! disse-lhe ela bem alto.
Podia-me restar a menor dúvida? Lúcia era amante do Couto.
Enquanto acompanhava com os olhos a cortesã desprezível que se balançava lubricitante
no seu novo carro, insultando com o luxo desmedido as senhoras honestas que passavam a pé, sabe
de que me lembrei? Não foi da ceia em casa de Sá, nem do mês que acabava de passar; foi
unicamente da suave aparição da Rua das Mangueiras no dia da minha chegada. São extravagâncias
da memória. Quem conhece o fio misterioso que leva o pensamento através do labirinto do passado
a uma lembrança remota?
— Rei morto, rei posto! disse-me o Cunha, que chegara à porta para ver Lúcia entrar no
carro.
— Não sei a que se refere!
— Referia-me, Sr. Silva, continuou apontando para o carro que ainda aparecia, àquele
trono de sedas e veludos que vagou esta manhã, e que uma hora depois já estava preenchido.
— Enganou-se, Sr. Cunha, respondi no mesmo tom de gracejo, fui apenas regente durante
uma curta vacância.
— Pois não é isso o que se dizia.
— O que se dizia então? repliquei tornando-me sério, porque as palavras de Sá me
acudiram ao pensamento.
— Dizia-se que o senhor mudara o sistema de governo daquele estado, e sucedera na
qualidade de autocrata aos reis constitucionais, como eu tive a honra de sê-lo em certo tempo.
— O que entende por autocrata, Sr. Cunha?
— Perdão: vejo que toma ao sério um gracejo. Mudemos de assunto; não desejo ofendê-lo.
57
O Couto, que nos ouvia de princípio, interveio na conversa.
— A significação da palavra é bem clara, Sr. Silva, disse com o seu fátuo sorriso.
— Se o Sr. Couto quisesse fazer-me o favor de explicá-la Tenho a inteligência embotada.
O velho calou-se com visível embaraço. Continuei pesando as minhas palavras:
— O senhor quer talvez lembrar-me que os autocratas têm o costume de tiranizar os povos
e vexá-los de imposições; razão por que os povos, quando os expulsam, se tornam excessivamente
exigentes para com os truões que lhes sucedem. Não é isto? Diga-me por obséquio: não faz idéia da
ansiedade com que procuro desde ontem um homem que tenha a coragem de repetir-mo em face!
— Ora, o senhor está brincando!
E o Sr. Couto fez-me uma profunda cortesia, e saiu empertigando-se mais que de costume.
Voltei-me para o Cunha.
— Bem dada lição! disse estendendo-me a mão.
— Decididamente não havia meio de brigar; o homem que eu procurava fugia-me como
uma sombra.
Tinha refletido: essa amizade não podia continuar; se havia de desatar mais tarde, depois
de me ter feito curtir mil dissabores, bom era que cessasse desde logo. Não julgue porém que estava
resolvido a separar-me por uma vez de Lúcia; minha coragem não chegava a tanto. O que eu
desejava era demitir de mim um título que me esmagava na minha pobreza, o título de amante
exclusivo da mais elegante e mais bonita cortesã do Rio de Janeiro.
Ela recebeu-me com brandura. Tinha os olhos rubros e pisados de lágrimas; apertando
minha mão, beijou-a. Que pretendia ela exprimir com esse movimento! Seria a imagem viva da
humilde fidelidade do cão, afagando a mão que o acaba de castigar?
Estivemos muito tempo sem trocar palavra.
Enfim Lúcia fez um esforço, sorriu como se nada houvesse passado, e veio sentar-se nos
meus joelhos, acariciando-me com a ternura e a graciosa volubilidade que ela tinha quando o júbilo
lhe transbordava d'alma. Aproveitei o momento para alijar o peso que desde a véspera me
acabrunhava.
— Sabes que eu não sou rico, Lúcia!
Seu olhar luminoso penetrou-me até os seios d’alma para arrancar o pensamento que
inspirava essas palavras; respondeu com um pálido sorriso:
— Pensava ao contrário que era muito rico!
Ela mentia!
— Pois pensaste mal. Sou pobre, e não posso sustentar o luxo de uma mulher como tu.
— Acha pouco o que me tem dado!
— O que dei não vale a pena de ser lembrado. Falemos do que te devia dar, e não pude,
porque não tinha. Neste mês que se passou, a tua vida não foi tão brilhante como era antes.
— Porque eu não quis, e não porque me faltasse coisa alguma. Nunca me achei tão rica
como agora.
— Não tens sido vista nos teatros e passeios; já não tens um carro; não és enfim a mulher
do tom que eu ainda conheci!
— Aborreci-me de tudo isto!
— Não te podes aborrecer sem que o mundo repare!
— Como! Não sou senhora de viver a meu modo, desde que com isso não faço mal a
ninguém? Se apareço, é um escândalo; se fico no meu canto, ainda se ocupam comigo.
— Que queres! Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és
uma celebridade pela beleza, como outras o são pelo talento e pela posição. O público, em troca do
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favor e admiração de que cerca os seus ídolos, pede-lhes conta de todas as suas ações. Quer saber
por que agora andas tão retirada; e não acha senão um motivo.
— Qual? perguntou Lúcia com ansiedade.
— Supõe que eu te sacrifico aos meus ciúmes; e não me perdoa, porque não sou bastante
rico para ter semelhantes caprichos.
— É isso que o incomoda! Meu Deus! Fique descansado: terei carro, aparecerei como
dantes! Hoje mesmo!... Verá! Não sabe quanto me custa esse sacrifício; mas um só beijo me paga
com usura!
Estalou o lábio entre os meus.
— Precisava dele para me dar coragem; agora sinto me forte.
— Aonde vais? perguntei retendo-a.
— Vou mandar a cocheira ver o meu carro; escrever à Gudin que me faça uma dúzia de
vestidos os mais ricos; dizer ao caixeiro do Wallerstein que me traga para escolher o que ele tem de
melhor em modas chegadas ultimamente! É verdade, esquecia-me de mandar tomar uma assinatura
no teatro lírico, e encomendar uma nova parelha de cavalos. A minha caleça já está usada; preciso
trocá-la por uma vitória, e renovar o fardamento dos criados. Até à noite tenho tempo para tudo. O
Jacinto se incumbirá de uma parte das comissões.
Olhei para Lúcia; ou está louca, ou zomba de mim, foi a minha primeira idéia, ouvindo a
sem-cerimônia e o desplante com que ela decretava um orçamento de despesa que faria estremecer
o mais pródigo financeiro.
— Espera, Lúcia!
— Ainda não é bastante? Que hei de fazer mais? disse com um gesto de cômico desespero.
Ah! Mandarei arranjar de novo a minha casa, e darei um baile! Que diz!
— Farás o que for do teu gosto!
— Do meu!...
— Goza da tua mocidade, é justo: tu podes e deves fazer; mas como só eu venho à tua casa
e todo o mundo sabe que não sou milionário, compreendes que, se isto continuasse, suspeitariam,
diriam mesmo, se já não disseram, que vivo à tua custa!
Lúcia ficou lívida; tinha compreendido.
— Então não posso dar-me a quem for de minha vontade?
— Quem diz isso? Eu é que não te posso aceitar por semelhante preço. À custa da honra...
é muito caro, Lúcia!
— Ah! esquecia que uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um carro
da praça, que não pode recusar quem chega. Estes objetos, este luxo, que comprei muito caro
também, porque me custaram vergonha e humilhação, nada disto é meu. Se quisesse dá-los,
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roubaria aos meus amantes presentes e futuros; aquele que os aceitasse seria meu cúmplice.
Esqueci, que, para ter o direito de vender o meu corpo, perdi a liberdade de dá-lo a quem me
aprouver! O mundo é lógico! Aplaudia-me se eu reduzisse à miséria a família de algum libertino;
era justo que pateasse se eu tivesse a loucura de arruinar-me, e por um homem pobre! Enquanto
abrir a mão para receber o salário, contando os meus beijos pelo número das notas do banco, ou
medindo o fogo das minhas carícias pelo peso do ouro; enquanto ostentar a impudência da cortesã e
fizer timbre da minha infâmia, um homem honesto pode rolar-se nos meus braços sem que a mais
leve nódoa manche a sua honra; mas se pedir-lhe que me aceite, se lhe suplicar a esmola de um
pouco de afeição, oh! então o meu contato será como a lepra para a sua dignidade e a sua reputação.
Todo o homem honesto deve repelir-me!
Impetuosas como a torrente que borbota em cachões, ardentes como as bolhas d'água em
plena ebulição, essas palavras se precipitavam dos lábios de Lúcia, em tropel e quase sem nexo. Às
vezes de tão rápidas que vinham lhe tomavam a respiração, e parecia que a estrangulavam. Até que
por fim um soluço cortou-lhe a voz; o seio ofegou como se o coração lhe quisesse saltar com o
último grito de indignação de sua alma ofendida.
Que responder àquela lógica inflexível da paixão fazendo justiça aos prejuízos sociais?
Nada. Calei-me, irritado contra os estímulos nobres que recebemos na infância e não nos permitem
praticar cientemente um ato de que devamos corar.
— Tu me fazes arrepender da minha franqueza, Lúcia! disse passado um momento.
Preferias que deixasse de ver-te?
— Não! Antes assim! O senhor quer!... Será feita a sua vontade! Terei amantes!
Saiu arrebatadamente e fechou-se no toucador.
Voltei, refletindo se o que tinha feito era realmente uma ação digna, ou uma refinada
covardia; servilismo à inveja e malevolência social, que se decora tantas vezes com o pomposo
nome de opinião pública.
Às três horas da tarde passando pela Rua do Ouvidor vi Lúcia na casa do Desmarais,
cercada por uma grande roda, na qual eu distingui logo o Sr. Couto e o Cunha.
Lúcia estava rutilante de beleza; a sua formosura tinha nesse momento uma ardentia
fosforescente que eu atribuí à irritação nervosa da manhã. O orgulho e o desprezo vertiam-Ihe de
todos os poros, nos olhos, nos lábios, nas faces e no porte desenvolto. Ela flutuava numa atmosfera
maléfica para o coração, que, entrando naquela zona abrasada, sentia-se asfixiar. A roda elegante
festejava o astro que surgia, depois do seu eclipse passageiro, mais que nunca brilhante.
Atirando a réplica viva e incisiva a todos os adoradores que a cortejavam; escarnecendo da
fineza, e fazendo ressaltar a zombaria contra o que a lançara, Lúcia, com a mesma liberdade que
teria em sua casa, continuava a escolher na grande exposição de objetos de fantasia que cobria os
balcões.
Que sentimento me obrigava a parar na loja para seguir com os olhos essa mulher, à posse
exclusiva da qual eu acabava de renunciar? Que motivo estranho, vendo-a agora cercada de
apaixonados, me fazia sofrer, a mim que não havia duas horas tinha assistido friamente à explosão
violenta da sua cólera?
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Lúcia me viu, porém não me deu atenção. Dirigiu-se ao Couto; trocando com ele algumas
palavras em segredo, voltou para o caixeiro e declarou que comprava os objetos apartados, cujo
preço lhe seria enviado no dia seguinte.
Vendo gesto significativo do Couto ao dono da loja, como eu, todas as pessoas presentes
ficaram persuadidas que da bolsa do velho saía o dinheiro que ela acabava de atirar a mancheias de
uma a outra ponta da Rua do Ouvidor.
Felizmente para mim, que já não me podia conter, o suplício terminou. Ela retirava-se.
Passando junto de mim cortejou-me, e disse em vez baixa:
— Está satisfeito?
O sorriso em que ela envolveu estas palavras, caiu, se me posso assim exprimir, como a
dobra de uma mortalha; tal foi a súbita lividez que lhe cobriu o rosto, e o desanimo que abateu o seu
corpo.
O Couto apressou-se a oferecer-lhe a mão para ajudá-la a entrar no carro.
— Até logo! disse-lhe ela bem alto.
Podia-me restar a menor dúvida? Lúcia era amante do Couto.
Enquanto acompanhava com os olhos a cortesã desprezível que se balançava lubricitante
no seu novo carro, insultando com o luxo desmedido as senhoras honestas que passavam a pé, sabe
de que me lembrei? Não foi da ceia em casa de Sá, nem do mês que acabava de passar; foi
unicamente da suave aparição da Rua das Mangueiras no dia da minha chegada. São extravagâncias
da memória. Quem conhece o fio misterioso que leva o pensamento através do labirinto do passado
a uma lembrança remota?
— Rei morto, rei posto! disse-me o Cunha, que chegara à porta para ver Lúcia entrar no
carro.
— Não sei a que se refere!
— Referia-me, Sr. Silva, continuou apontando para o carro que ainda aparecia, àquele
trono de sedas e veludos que vagou esta manhã, e que uma hora depois já estava preenchido.
— Enganou-se, Sr. Cunha, respondi no mesmo tom de gracejo, fui apenas regente durante
uma curta vacância.
— Pois não é isso o que se dizia.
— O que se dizia então? repliquei tornando-me sério, porque as palavras de Sá me
acudiram ao pensamento.
— Dizia-se que o senhor mudara o sistema de governo daquele estado, e sucedera na
qualidade de autocrata aos reis constitucionais, como eu tive a honra de sê-lo em certo tempo.
— O que entende por autocrata, Sr. Cunha?
— Perdão: vejo que toma ao sério um gracejo. Mudemos de assunto; não desejo ofendê-lo.
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O Couto, que nos ouvia de princípio, interveio na conversa.
— A significação da palavra é bem clara, Sr. Silva, disse com o seu fátuo sorriso.
— Se o Sr. Couto quisesse fazer-me o favor de explicá-la Tenho a inteligência embotada.
O velho calou-se com visível embaraço. Continuei pesando as minhas palavras:
— O senhor quer talvez lembrar-me que os autocratas têm o costume de tiranizar os povos
e vexá-los de imposições; razão por que os povos, quando os expulsam, se tornam excessivamente
exigentes para com os truões que lhes sucedem. Não é isto? Diga-me por obséquio: não faz idéia da
ansiedade com que procuro desde ontem um homem que tenha a coragem de repetir-mo em face!
— Ora, o senhor está brincando!
E o Sr. Couto fez-me uma profunda cortesia, e saiu empertigando-se mais que de costume.
Voltei-me para o Cunha.
— Bem dada lição! disse estendendo-me a mão.
— Decididamente não havia meio de brigar; o homem que eu procurava fugia-me como
uma sombra.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
CAPÍTULO IV
No dia seguinte à mesma hora voltei à casa de Lúcia; achei-a ao piano.
— O que estava tocando?
— Nem sei!... Uma valsa que aprendi de ouvido.
— Continue!
— Não sei tocar, não! Estava brincando; não tinha que fazer. — Como passou de ontem?
— Bem, obrigado. Já vê que a minha segunda visita não se demorou muito.
— Ainda assim não compensa a demora da primeira.
— Sentiu essa demora?... Qual! ontem nem me conheceu.
— Tanto como na Glória. Ainda que se tivessem passado anos, creio que em qualquer parte
onde me encontrasse com o senhor, o reconheceria.
— Por que motivo então fingiu ontem não se lembrar de mim, logo que entrei?
— Por quê?... Queria ver uma coisa.
— E não se pode saber o que era?
— Não é preciso!
— Há de me dizer!...
E tomei-lhe as mãos que estavam frias e trêmulas.
— Pois bem, eu lhe digo. Queria ver se ainda se lembrava do nosso primeiro encontro,
respondeu ela furtando o corpo ao meu abraço.
— Duvidava?... Não tinha razão; talvez fosse eu o que melhor guardasse essa lembrança.
Lúcia abanou a cabeça lentamente:
— Que vestido levava eu naquela tarde? perguntou sorrindo.
A pergunta embaraçou-me. Quando admiro uma mulher bonita, a impressão que ela produz
em mim não me deixa ver mais que a sua beleza.
— Nem se recorda!
— É um defeito meu. Não reparo na toilette das moças bonitas pela mesma razão por que
não se repara na moldura de um belo quadro.
11
— Que desculpa!... E eu por que reparei no seu traje, na cor de sua sobrecasaca, em tudo;
até na sua bengala? Não é esta; a outra era mais bonita; tinha o castão de marfim. Está vendo que
me lembro perfeitamente, e entretanto não tenho esses objetos diante dos olhos!
— Ah! É este o vestido?
— O vestido, as jóias, o penteado, o leque, aquele que o senhor apanhou. Nem desse se
lembrava! Só falta o chapéu! Quer vê-lo?
Lúcia saiu um instante e voltou. Ou porque a minha memória se avivasse, ou porque a
ausência desse gentil chapéu, que parecia fugir-lhe da cabeça, tão de leve a cingia, mutilasse a
graciosa imagem que eu vira na tarde de minha chegada; o fato é que a aparição já desvanecida
surgira de repente aos meus olhos.
— Agora lembro-me! Estou vendo-a como a vi da primeira vez!
— Como daquela vez não me verá mais nunca!
— O que lhe falta?
— Falta o que o senhor pensava e não tornará a pensar! disse ela com a voz pungida por dor
íntima!
Não compreendi então aquelas palavras, nem o tom com que foram proferidas; procurei-lhes
o sentido, acompanhando com os olhos a Lúcia que tirava lentamente o chapéu, e fitava na sua
imagem refletida pelo espelho um triste olhar.
— Ah! já sei! O que eu pensava?... Mas ainda penso: acho-a hoje tão bonita ou mais do que
naquela tarde.
— Não é isto!
— O que é então? Venha dizer-me.
— O que estava tocando?
— Nem sei!... Uma valsa que aprendi de ouvido.
— Continue!
— Não sei tocar, não! Estava brincando; não tinha que fazer. — Como passou de ontem?
— Bem, obrigado. Já vê que a minha segunda visita não se demorou muito.
— Ainda assim não compensa a demora da primeira.
— Sentiu essa demora?... Qual! ontem nem me conheceu.
— Tanto como na Glória. Ainda que se tivessem passado anos, creio que em qualquer parte
onde me encontrasse com o senhor, o reconheceria.
— Por que motivo então fingiu ontem não se lembrar de mim, logo que entrei?
— Por quê?... Queria ver uma coisa.
— E não se pode saber o que era?
— Não é preciso!
— Há de me dizer!...
E tomei-lhe as mãos que estavam frias e trêmulas.
— Pois bem, eu lhe digo. Queria ver se ainda se lembrava do nosso primeiro encontro,
respondeu ela furtando o corpo ao meu abraço.
— Duvidava?... Não tinha razão; talvez fosse eu o que melhor guardasse essa lembrança.
Lúcia abanou a cabeça lentamente:
— Que vestido levava eu naquela tarde? perguntou sorrindo.
A pergunta embaraçou-me. Quando admiro uma mulher bonita, a impressão que ela produz
em mim não me deixa ver mais que a sua beleza.
— Nem se recorda!
— É um defeito meu. Não reparo na toilette das moças bonitas pela mesma razão por que
não se repara na moldura de um belo quadro.
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— Que desculpa!... E eu por que reparei no seu traje, na cor de sua sobrecasaca, em tudo;
até na sua bengala? Não é esta; a outra era mais bonita; tinha o castão de marfim. Está vendo que
me lembro perfeitamente, e entretanto não tenho esses objetos diante dos olhos!
— Ah! É este o vestido?
— O vestido, as jóias, o penteado, o leque, aquele que o senhor apanhou. Nem desse se
lembrava! Só falta o chapéu! Quer vê-lo?
Lúcia saiu um instante e voltou. Ou porque a minha memória se avivasse, ou porque a
ausência desse gentil chapéu, que parecia fugir-lhe da cabeça, tão de leve a cingia, mutilasse a
graciosa imagem que eu vira na tarde de minha chegada; o fato é que a aparição já desvanecida
surgira de repente aos meus olhos.
— Agora lembro-me! Estou vendo-a como a vi da primeira vez!
— Como daquela vez não me verá mais nunca!
— O que lhe falta?
— Falta o que o senhor pensava e não tornará a pensar! disse ela com a voz pungida por dor
íntima!
Não compreendi então aquelas palavras, nem o tom com que foram proferidas; procurei-lhes
o sentido, acompanhando com os olhos a Lúcia que tirava lentamente o chapéu, e fitava na sua
imagem refletida pelo espelho um triste olhar.
— Ah! já sei! O que eu pensava?... Mas ainda penso: acho-a hoje tão bonita ou mais do que
naquela tarde.
— Não é isto!
— O que é então? Venha dizer-me.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
PROPOSTA DE TRABALHO
Obra: Lucíola, de José de Alencar (V: 5,0)
Queridos alunos
Quem diria, Lucíola saiu das páginas amareladas da Literatura Brasileira e veio parar na rede mundial de computadores. Viram como o texto literário ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço? José de Alencar nunca imaginaria uma maravilha dessas!
A proposta é a seguinte: até o final de novembro serão postados textos e/ou questões sobre a obra lida. A cada texto ou questão, vocês deverão postar seus comentários ou respostas para que sejam avaliados pela professora.
Para realizar este trabalho, vocês podem se organizar em grupos de até 4 pessoas. Lembrem-se que os nomes devem aparecer ao final do comentário.
Na avaliação do seu trabalho, serão observados os seguintes critérios:
- Adequação ao texto e/ou questão
- Adequação à modalidade culta da língua portuguesa
- Coerência
- Coesão
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