terça-feira, 25 de novembro de 2008

CAPÍTULO 31

A voz desfaleceu completamente, de extenuada que ela ficara por esse enérgico esforço.
Eu chorava de bruços sobre o travesseiro, e as suas palavras suspiravam docemente em minha alma,
como as dulias dos anjos devem ressoar aos espíritos celestes.
— Nunca te disse que te amava, Paulo!
— Mas eu sabia, e era feliz!
— Tu me purificaste ungindo-me com os teus lábios. Tu me santificaste com o teu
primeiro olhar! Nesse momento Deus sorriu e o consórcio de nossas almas se fez no seio do
Criador. Fui tua esposa no céu! E contudo essa palavra divina do amor, minha boca não a devia
profanar, enquanto viva. Ela será meu último suspiro.
Lúcia pediu-me que abrisse a janela: era noite já; do leito víamos uma zona de azul na qual
brilhava límpida e serena a estrela da tarde. Um sorriso pálido desfolhou-se ainda nos lábios sem
cores: sublime êxtase iluminou a suave transparência de seu rosto. A beleza imaterial dos anjos
deve ter aquela divina limpidez.
— Recebe-me... Paulo!...
Terminei ontem este manuscrito, que lhe envio ainda úmido de minhas lágrimas.
Relendo-o, admirei como tivera a coragem de alguma vez, no correr desta história, deixar a
minha pena rir e brincar, quando o meu coração estava ainda cheio da saudade, que sepultou-se nele
para sempre.
É porque, repassando na memória essa melhor porção de minha vida, alheio-me tanto do
presente que revivo hora por hora aqueles dias de ventura, como de primeiro os vivo, ignorando o
futuro, e entregue todo às emoções que sentia outrora. Quando eu gracejava, Lúcia estava ainda ao
meu lado; ainda eu era feliz da minha lembrada felicidade.
Há seis anos que ela me deixou; mas eu recebi a sua alma, que me acompanhará
eternamente. Tenho-a tão viva e presente no meu coração, como se ainda a visse reclinar-se meiga
para mim. Há dias no ano e horas no dia que ela sagrou com a sua memória, e lhe pertencem
exclusivamente. Onde quer que eu esteja, a sua alma me reclama e atrai; é forçoso então que ela
viva em mim. Há também lugares e objetos onde vagam seus espíritos; não os posso ver sem que o
seu amor me envolva como uma luz celeste.
Ana casou-se há dois anos. Vive feliz com seu marido, que a ama como ela merece. É um
anjo de bondade; e a juventude realçando-lhe as graças infantis, aumentou a sua semelhança com a
irmã; porém falta-lhe aquela irradiação íntima de fogo divino. Almas como as de Lúcia, Deus não
as dá duas vezes à mesma família, nem as cria aos pares, mas isoladas como os grandes astros
destinados a esclarecer uma esfera.
Cumpri a vontade de minha Lúcia; tenho servido de pai a essa menina; com a sua
felicidade paguei um óbolo de minha gratidão à doce amiga que tanto amou-me.
Estas páginas foram escritas unicamente para a senhora. Vazei nelas toda a minha alma
para lhe transmitir um perfume da mulher sublime, que passou na minha vida como sonho fugace.
Creio que não o consegui; por isso fecho aqui alguns fios da trança de cabelos, que cortei no
momento de dizer o último adeus à sua imagem querida.
Há nos cabelos da pessoa que se ama não sei que fluido misterioso, que comunica com o
nosso espírito. A senhora há de amar Lúcia, tenho a certeza; talvez pois aquela relíquia, ainda
impregnada de seiva e fragrância da criatura angélica, lhe revele o que eu não pude exprimir

4 comentários:

Thaís U disse...

José de Alencar, neste último capítulo relata Lúcia em seus últimos momentos de vida agradecendo a Paulo pelo bem enorme que ele a fez: “Tu me purificaste ungindo-me com os teus lábios. Tu me santificaste com o teu primeiro olhar (...). Fui tua esposa no céu”.
Apesar de haver seis anos da morte de Lúcia (por uma doença que, acreditava ela, devia-se ao fato de seu corpo não ser puro), Paulo ainda a sente viva dentro de teu ser. Ele cumpriu o prometido à sua amada e cuidou de Ana, por ela, que mais tarde casou-se com um homem que a amava muito.
É com a tristeza e o sofrimento de Paulo pela ausência de seu único e verdadeiro amor que José de Alencar despede-se deste romance histórico da literatura brasileira.
Postado por Thaís Uliana, Paulo Mazzoco, Thaiz Altoé e Lorena Scolforo.

Unknown disse...

Neste capítulo, é retratado o desfecho da história de Lúcia, que estava quase falecendo, e essa declara seu amor a Paulo: “tu me purificastes ungindo-me com os teus lábios... Fui tua esposa no céu! E contudo essa palavra divina do amor, minha boca não devia profanar, enquanto viva. Ela será meu último suspiro”.
Ao final do capítulo, Paulo declara o seu eterno amor por Lúcia, “há seis anos, que ela me deixou, mas eu recebi a sua alma, que me acompanhará eternamente”.
José de Alencar finaliza seu romance de forma comovente e emocionante, sendo inesquecível para todos os leitores que possuíram o prazer de ler um romance de 1862, deste escritor considerado o maior romancista do Romantismo Brasileiro.
“Onde quer que eu esteja, a sua alma me reclama e atrai; é forçoso então que ela viva em mim”, “há nos cabelos da pessoa que se ama não sei que fluido misterioso, que comunica com o nosso espírito.”

Grupo: Adeliane, Bárbara, Érica e Karina.

Dalila disse...

No capítulo retratado, momentos antes de Lúcia falecer, os dois trocam declarações de amor, "_Nunca te disse que te amava, Paulo! _Mas eu sabia, e era feliz!", jurando amor eterno Lúcia morre nos braços de seu amado.
Paulo conclui a história dizendo que serviu de pai para Ana até que esta se case, e que nunca irá esquecer do amor eterno que sentiu por Lúcia, de sua seiva e fragrância angélica, e sua irradiação íntima de fogo divino.

Grupo: Ana Clara, Dalila, Gabriela e Laís.

vitulemes disse...

Lúcia nunca havia dito a Paulo que o amava, pois não se achava digna disso, já que ela não era pura, porém segundo ela Paulo a purificou quando a amou.
Paulo mostra ainda se lembrar de Lúcia com muita saudade, e nem pensa em esquecê-la, pois ela ainda está presente em seu coração. Apesar de tudo ele á valoriza, e afirma existem poucas as almas como a dela, ainda cumpre a sua vontade cuidando de sua doce irmã, pois prometeu ser como um pai para ela.
Apesar de escrever com toda a sua alma Paulo acha impossível transmitir através de palavras o “perfume” de Lúcia por isso deixa no livro alguns fios de sua trança.

Comentário feito por: Felipe, Hugo, Isadora, João Vitor